UNIVERSIDADE ABERTA
CURSO DE MESTRADO EM RELAÇÕES INTERCULTURAIS 2010/2011
Fernanda M.ª P. R. Alberto 901655
Vozes da nossa cultura sobre outras culturas
“…As identidades culturais não são rígidas, nem muito menos imutáveis. “
Esta frase de Boaventura de Souza Santos encerra uma realidade incontornável sobre a história das civilizações e das suas culturas, sobre a história da Humanidade, ao analisar-se, numa perspectiva histórica, a evolução das civilizações/culturas verifica-se que estas não são estanques, não começam e acabam em datas especificas, pelo contrário evoluem a partir dos contactos estabelecidos com outras civilizações/culturas, qualquer que seja a forma sob a qual se efectuam, bélica, comercial ou cultural. A imutabilidade não é uma característica civilizacional, o Homem é um ser social, como tal as trocas culturais são inerentes aos contactos relacionais estabelecidos ao longo dos tempos. A civilização/cultura Grega, Egípcia, Chinesa e outras não se esgotaram na transformação, antes adicionaram e transmitiram conhecimentos a si próprias e às outras com quem estabeleceram contacto.
Tal como no passado também as sociedades actuais não são estanques, sendo que “… O mundo actual é caracterizado por um número crescente de contactos…” (Journal of Intercultural Communication) estes contactos primam pela rapidez, quase instantaneidade, os meios de comunicação disponíveis favorecem estas ligações, são no entanto os contactos directos entre as populações que causam os conflitos, é o atravessar as fronteiras culturais que origina as relações tensas e muitas vezes violentas, o que se desconhece tende a ser considerado ameaçador, este medo do desconhecido, da diferença que não se conhece seja ela real ou imaginária servirá sempre para justificar uma agressão. Por se pertencer a uma determinada raça acredita-se que se é superior às outras raças, este é o princípio básico do racismo, “…O racismo, longe de ser um resíduo ou um anacronismo, está progredindo como parte integrante do desenvolvimento do sistema mundial capitalista…” (Wallerstein & Balibar, 1991) ,
Longe de ter acabado, o conceito de racismo permanece bem vivo no seio da nossa sociedade, uma sociedade que arvora o estandarte do multiculturalismo e da comunicação intercultural para a qual não é politicamente correcto denominar etnias com o termo “raça”, palavra abolida mesmo ao nível da biologia humana.
Em Portugal também os ecos do politicamente correcto se interiorizaram, já não se ouve denominar, ou pelo menos não tão frequentemente, os africanos que trabalham na construção civil como “Os pretos que trabalham nas obras!” e esta frase já choca quem a ouve, utiliza-se como substituição “Os imigrantes africanos que trabalham nas obras!” esta frase já não choca, no entanto, “… O conceito de imigração substituiu o de raça e dissolve a consciência de classe …” (Boaventura Sousa Santos) constata-se a etnicização da força de trabalho, certas etnias são associadas a determinados trabalhos e a determinadas tarefas (debilitando nas sociedades de acolhimento a força e a consciência de classe), e enquadrada neste conceito, a palavra “imigrante” toma o sentido da palavra “preto”, já não é a cor da pele que distingue e subvaloriza e sim a identidade cultural, “o imigrante” é muitas vezes definido como uma pessoa proveniente de um pais com cultura diferente, economicamente pobre e na sua maioria com um grau de académico reduzido ou inexistente, se a isto se associar os estereótipos que povoam as mentalidades das populações dos países de acolhimento, em Portugal é vulgar ouvir: “Os Africanos são preguiçosos”, “As brasileiras são prostitutas e querem é casar com os portugueses”, então teremos a nova face da discriminação e do racismo.
Portugal, país multicultural no qual coexistem diferentes culturas, enfrenta toda a problemática relacionada com as vagas imigratórias que nos últimos anos aqui têm afluído, originárias dos mais diversos países, nalguns casos não tem existido problemas significativos de integração na sociedade portuguesa, como é o caso dos imigrantes provenientes da Europa de Leste (com excepção dos Romenos) conotados com elevados graus académicos, facilidade na aprendizagem da língua portuguesa e trabalhadores eficientes e da comunidade chinesa que mantem uma cultura muito própria, isolada da cultura portuguesa, mas integrada nas regras sociais e no respeito pelas leis portuguesas, outros casos há em que as culturas minoritárias sentem a discriminação e exigem os seus direitos por vezes de uma forma violenta e à margem da lei.
A Lei n.º 23/2007 de 4 de Julho prevê no seu artigo 98º a autorização do reagrupamento familiar, desde que o cidadão tenha uma autorização de residência válida, mesmo que os laços familiares tenham sido constituídos posteriormente à entrada do residente no nosso país, sendo a distância aos familiares uma das maiores dificuldades com que as populações migrantes se debatem, o nosso pais contemplou no seu enquadramento jurídico uma norma que pretende colmatar essa dificuldade e assim facilitar a integração do imigrante reunindo no país de acolhimento a unidade familiar.
Alexander é um menino de 9 anos, proveniente da Ucrânia, que ao abrigo desta lei, se reuniu aos pais e está a viver em Portugal há cerca de 4 meses, pouco conhece da língua portuguesa mas as aulas de acompanhamento e a facilidade de relacionamento com as outras crianças está a permitir-lhe acompanhar as aulas do 4º ano. Foi convidado para uma festa de anos, num espaço vocacionado para estes eventos, de uma menina da sua turma, e por conversa com a mãe, fiquei a saber do problema com que se debatia, ele não sabia o que era uma festa de anos nestes moldes porque na sua região de origem não existia, tinha receio de não ter com quem brincar e de não saber o que fazer, andou vários dias a dizer que ia e a dizer que não ia. Foi. Brincou, riu, foi feliz, não precisou de saber falar muito português porque as crianças são simples, e já quer que a sua festa de anos seja igual à da menina. A mãe no fim perguntou se era necessário pagar, entendi que também ela desconhecia o que para nós é normal. É um exemplo que aqui deixo de como a integração nas normas culturais de um pais também passam por pequenos pormenores, nem só das grandes questões da comunicação intercultural é feita a integração de um ser humano num mundo desconhecido e diferente. Para o Alexander esta festa foi o descobrir de um mundo novo, o conhecer de uma realidade que para nós é normal e vulgar mas que para ele foi um pequeno passo na sua integração na nossa cultura e na nossa sociedade.
Bibliografia:
- Santos, Boaventura de Souza, Modernidade, Identidade e a Cultura de Fronteira. Tempo Social; Ver. Social. USP, S. Paulo, 5(1-2): 31-52, 1993
- Journal of Intercultural Communication – http://www.immi.se/intercultural
- Lei n.º 23/2007 de 4 de Julho – A Nova Lei da Imigração – Aprova o regime jurídico de entrada, permanência, saída e afastamento de estrangeiro do Território Nacional.
Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão
http://www.minerva.uevora.pt/publicar/racismo/racista_eu.htm
A União Europeia considera que deve combater as discriminações em razão do sexo, raça, origem étnica, religião e crença, deficiência, idade ou orientação sexual
http://www.multiculturas.com/fds_multi-interculturalismo.htm
A multi/interculturalidade é um dos temas que mais atrai a atenção atual, suscitando uma abundante bibliografia focada no estudo da socio- e da etnodiversidade no meio escolar e na consequente (in)adaptação da escola aos desafios identitários que vão surgindo nos países receptores de imigração.
Educação intercultural
Comunicação Intercultural - Definição
Disciplina científica que estuda os processos de comunicação entre representantes de culturas diferentes. A noção de cultura é compreendida de maneira muito vasta e abarca igualmente as culturas nacionais, como, por exemplo, a cultura portuguesa ou a cultura francesa, e as culturas ao nível supranacional, como, por exemplo, a cultura mediterrânica ou a cultura oriental. Alguns autores incluem também a comunicação entre mulheres e homens ou a comunicação entre grupos maioritários e minoritários pertencentes à mesma cultura ou nação. A comunicação intercultural (intercultural communication ) pode ser dividida em cross-cultural communication , que compara os padrões comunicativos em várias culturas ou subculturas, e a comunicação e relações internacionais (communication and international relations ), que analisa a comunicação entre nações e líderes políticos. Entre as subdisciplinas da comunicação intercultural pode incluir-se também a vertente comparativa de estudos mediáticos (comparative mass communication ), que estuda o funcionamento e implicações culturais de sistemas mediáticos, e a developmental communication , que investiga o aspecto cultural das mudanças económicas e sociais, principalmente em países em vias de desenvolvimento.
Actualmente, as teorias da comunicação intercultural partem do princípio do relativismo cultural, quer dizer, reconhecimento da relatividade de normas de cada cultura.
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